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  • • 17/02/2012 - O Efeito placebo e os antidepressivos

    Placebo uma substncia inerte, sem propriedades farmacolgicas, administrado a uma pessoa ou grupo de pessoas como se tivesse propriedades teraputicas; costuma    ser  utilizado para estudar a eficcia de tratamentos medicamentosos, cirrgicos, psicoterpicos ou de terapias alternativas, tais como a homeopatia, acupuntura, florais de Bach etc. O procedimento-padro consiste em um estudo duplo-cego, em que se divide os pacientes em dois grupos com as mesmas patologias: em um grupo aplicado o tratamento verdadeiro e no outro o placebo, ou seja, a substncia sem o princpio ativo, mas de modo que nem os pacientes nem os mdicos ou terapeutas sabem que sujeito pertence a que grupo. Aps o perodo de avaliao, o pesquisador (que o nico que sabe quem est usando o placebo e quem est usando o medicamento ou fazendo psicoterapia) compara os dois grupos quanto eficcia dos resultados.

    Para espanto de pesquisadores como Cindy Seiwert, de 20 a 100% dos pacientes responderam positivamente aos placebos, especialmente em dores de cabea (61,9%), hipertenso (  49,0%), dores reumticas ( 45,0%) e enxaqueca ( 32,3%), s para citar os que mais se destacaram. comum, inclusive, pacientes comearem a melhorar da depresso dois a trs dias depois de iniciado o tratamento com antidepressivos, apesar de o usual ser o efeito se manifestar aps duas semanas.  A este respeito, segundo o psiquiatra Irving Kirsch, a bilionria indstria dos antidepressivos se mantm graas ao efeito placebo. Ao compilar 57 estudos, durante os ltimos quinze anos, concluiu que apenas entre 18 e 25% da melhora obtida com antidepressivos est associada substncia ativa do remdio. O restante   se   deve  ao  efeito placebo e evoluo natural da doena. Enfatizou, porm, que nos casos de depresso grave o uso de medicamentos de verdade imprescindvel; essa enfermidade, quando  deixada a  seu prprio curso, incapacita para as atividades cotidianas, destri os laos afetivos e pode levar ao suicdio.

    O placebo tambm pode desencadear uma variada srie de efeitos colaterais, sendo ento denominado  nocebo, destacando-se: cansao ( 41,0%), dificuldade de concentrao ( 27,0%), constipao intestinal ( 31,0%) e sonolncia ( 23,0%). O interessante que o efeito nocebo pode aparecer muito antes de o medicamento ser absorvido. Apesar de as drgeas serem de absoro intestinal, que demora mais de duas horas, alguns pacientes relatam tais efeitos colaterais alguns minutos aps terem-nas ingerido!

    E quais as causas do efeito placebo?
    As hipteses so as seguintes:

    1- A expectativa do paciente- entra aqui em jogo a capacidade de sugesto do paciente e de seus familiares; quando positiva, aumenta a possibilidade do efeito placebo, ocorrendo o fenmeno nocebo quando a expectativa for negativa. Considera-se tambm que, quanto maior o componente psicolgico de um distrbio, maior ser a sua suscetibilidade ao efeito placebo, o que se aplica particularmente aos antidepressivos. Assim, no caso da depresso, a cascata qumica desencadeada pelo efeito placebo atua nos mecanismos psquicos que originam a doena; conclui, assim, o neurocientista Renato Sabbatini, que o efeito placebo tem eficcia teraputica.

    2- Prestgio e grau de ateno do terapeuta- para a cura, seja pelo placebo, seja pelo medicamento/psicoterapia, importante que o terapeuta seja admirado por seu paciente; bsico, tambm, que seja estabelecida uma relao de compreenso e carinho, o que por si s j satisfaz o anseio de cura do paciente, proporcionando a melhora desejada.

    3- Tipo de droga usada como placebo- drogas que so amargas, ardem, caras, difceis de usar ou a ltima pesquisa cientfica, alm de placebos de uso tpico (em relao aos de uso oral  ) so mais eficazes. Aparelhos, como eletrocardiogramas, emissores de ondas  etc  tambm tm um impacto psicolgico significativo.
    Finalizando, em qualquer especialidade da Medicina e da   Psicologia, o efeito placebo no uma mentira que cura, nem um suborno do mdico em relao s nossas emoes. Ele mostra que a cura depende do relacionamento harmonioso entre o terapeuta e o paciente, baseado em confiana, respeito, ateno, carinho e inteno curativa do prprio paciente.

    O filme As Horas, do diretor Stephen Daldry, ilustra com clareza o comportamento depressivo e suicida dos personagens centrais, apresentando a histria e os conflitos de trs mulheres, uma romancista, Virginia Woolf, e duas mulheres de fico, Laura Brown e Clarissa Vaughan; as trs vivem em pocas diferentes mas todas tm em comum  sentimentos depressivos e at suicidas. Virginia Woolf retratada em 1923, escrevendo seu famoso livro Mrs.Dalloway. Apresenta, ento, idias suicidas recorrentes, escuta vozes e, apesar da vigilncia do marido, aps duas tentativas frustradas consegue se matar por afogamento, com tal determinao que coloca pedras nos bolsos para afundar mais rapidamente. Convm destacar que, na poca, sua doena era pouco conhecida. Quem sabe um bom antidepressivo, no um placebo, fosse capaz de salv-la?

    Quanto personagem Laura Brown, sua histria se passa j em 1949. uma mulher casada com um heri de guerra que a adora, me de um menino de cinco anos e grvida do segundo filho, sendo leitora assdua de Virginia Woolf, da qual est lendo no momento Mrs.Dalloway; tem sintomas ntidos de depresso, inclusive a falta de apetite e a fuga da realidade por meio da leitura. Aps uma tentativa de suicdio fracassada foge, abandonando a famlia. Finalmente, Clarissa Vaughan, apesar de ser uma editora bem sucedida, me de uma moa e casada com uma produtora de TV, tem sua vida atrelada de seu amigo Richard, o quarto personagem. Acometido e muito debilitado pela  Aids  Richard, que coincidentemente o filho abandonado por Laura Brown, sobrevive sendo cuidado pela amiga. Ambos   mantm  laos extremos de dependncia mtua, que chega quase a uma simbiose mas que o incomodam, a ponto de lev-lo a dizer: Fiquei vivo por voc. Mas voc tem que me deixar ir! Sua perda total de interesse pela vida o leva a, depois de reconhecer o quanto ela foi boa para ele, atirar-se imediatamente da janela, suicidando-se.




    Imagem que abre o filme As Horas, simbolizando o suicdio de Virginia Woolf

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